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Valparaíso: Governo Marcus vira alvo de aliados e acende disputa pela prefeitura em 2028

Sob críticas à falta de identidade, à comunicação e ao secretariado, prefeito Marcus Vinicius vê crescer a pressão por mudanças e o nome de Pábio para 2028.

Entre os candidatos a prefeito apoiados pelo então governador Ronaldo Caiado (PSD) no Entorno Sul, Marcus Vinicius (MDB) foi o que obteve a menor votação proporcional entre os eleitos, com 61,28% dos votos. Em Cidade Ocidental, por exemplo, Lulinha (PP) venceu com 63,87%, mesmo diante de uma prefeitura abalada por escândalos de corrupção.

Para políticos ouvidos pelo Lupa Política, o resultado precisa ser analisado dentro do contexto da eleição de 2024. Na avaliação deles, a chamada “onda caiadista” impulsionou candidaturas apoiadas pelo então governador e fortaleceu palanques em várias cidades do Entorno.

O problema, segundo essas lideranças, é que Marcus parece se enxergar como um fenômeno eleitoral, dono de uma força política própria. A leitura dos bastidores é diferente. Sem o apoio do ex-prefeito Pábio Mossoró (MDB) e de Caiado, o jovem advogado provavelmente teria disputado o terceiro lugar com Maria Yvelônia, atrás de Zé Antônio.

A própria trajetória política de Vinicius é apontada como um dos elementos que sustentam essa avaliação. Em 2016, quando ainda era vereador e vivia um momento de maior projeção por exercer um mandato, desistiu de disputar a prefeitura porque não conseguia crescer nas pesquisas. Na ocasião, preferiu apoiar o então vereador Afrânio Pimentel para o Executivo municipal por não acreditar no projeto de Pábio, que havia iniciado a pré-campanha com apenas um dígito nas pesquisas.

Gestão ainda busca identidade própria

Na avaliação de políticos ouvidos pela reportagem, a atual administração ainda não conseguiu construir uma identidade própria. Faltariam personalidade, metas claras e uma agenda consistente de desenvolvimento para Valparaíso. O que se observa, segundo eles, é a continuidade do projeto anterior, mas sem o mesmo vigor que marcou a gestão Mossoró.

Com isso, afirmam, Valparaíso vive um continuísmo sem o brilho de outrora. Marcus herdou uma base política sólida, uma máquina administrativa organizada e um legado considerado expressivo. Na visão desses políticos, havia condições favoráveis para realizar uma das melhores administrações da história do município, em um céu de brigadeiro.

Eles lembram ainda que o prefeito não enfrentou crises semelhantes às vividas por seu antecessor. No primeiro mandato de Pábio, por exemplo, a deputada federal Lêda Borges (Republicanos-GO) rompeu com o então prefeito, retirou seu grupo da administração e passou a fazer forte oposição. O governo precisou reorganizar sua estrutura política e administrativa.

Vinicius também não teve de administrar uma crise da dimensão da pandemia de Covid-19, período em que Pábio, segundo aliados, precisou “tirar leite de pedra” para manter os serviços públicos. Ainda assim, a percepção da classe política é de que a atual gestão permanece abaixo dos dois governos de Mossoró e também da administração de Lêda.

Há quem compare o governo atual à gestão da ex-prefeita Lucimar Nascimento (PT). A analogia é considerada exagerada por alguns, mas revela o grau de insatisfação existente nos bastidores. “Marcus está à frente apenas do governo Lucimar, mas bem atrás de Pábio e Lêda. Também fica atrás de Zé Valdécio, que governou por dois mandatos. Depois de três prefeitos bem avaliados, a comparação seria inevitável”, afirmou um vereador da base, sob condição de anonimato.

Experiência e postura são questionadas

Outro ponto recorrente nas conversas de bastidores é a postura do prefeito. “Talvez tenha havido excesso de confiança ou uma avaliação equivocada sobre a própria capacidade de conduzir o cargo. Sempre considerei que Marcus ainda precisava acumular mais experiência política antes de assumir a prefeitura. Havia nomes com trajetória mais longa. Ele chegou ao Executivo depois de apenas um mandato de vereador, exercido anos antes. Uma nova passagem pela Câmara, de preferência com experiência na presidência da Casa, poderia ter lhe dado mais maturidade política e uma compreensão mais ampla sobre o exercício do poder”, disse outra liderança ouvida pela reportagem.

O mesmo político comparou a postura de Vinicius à do ex-presidente Fernando Collor. “Foi ou não foi o mesmo que aconteceu com Collor? Não existe, até o momento, um ‘PC Farias’ no governo Marcus, mas a falta de tato político e a vaidade excessiva lembram o ex-presidente”, finalizou.

Comunicação vira alvo de críticas

A estratégia de comunicação da prefeitura também é alvo de críticas. Nos bastidores, Vinicius passou a ser chamado de “prefeito TikTok” por causa do uso excessivo das redes sociais. Para a classe política consultada, a administração apresenta ações rotineiras como grandes realizações, mesmo quando se trata de serviços básicos ou de mero expediente.

Na avaliação dos entrevistados, a comunicação tenta produzir impacto onde não há uma entrega de maior relevância. A comparação usada nas rodas de conversas é a de que o governo cria fogos de artifício sem que exista uma festa. Em outras palavras, quando faltam resultados de maior peso, a gestão transforma obrigações comuns da prefeitura em acontecimentos extraordinários.

Os críticos consideram essa estratégia um erro político. Para eles, a população consegue distinguir obras estruturantes, políticas públicas e avanços duradouros de ações pontuais que fazem parte da rotina administrativa. Daí o apelido dado ao prefeito.

Reforma administrativa é apontada como saída

Apesar das críticas, pessoas ouvidas pelo Lupa avaliam que ainda há tempo para reverter o desgaste. O caminho, segundo elas, passaria por uma ampla reforma administrativa, com a substituição de parte do secretariado por gestores que conheçam melhor a realidade do município e tenham capacidade de apresentar resultados.

“Há tempo para arrumar a casa, mas acredito que faltem autocrítica e vontade política. Se houver uma reforma no secretariado, o governo pode começar a funcionar. Com muitos dos que estão aí, porém, pode esquecer. Apenas cerca de cinco secretários têm apresentado bons resultados, como Afrânio (Cultura e Esporte), Ricardo Viana (Meio Ambiente), Josélia Leão (Assistência Social), Milton dos Reis (Finanças) e Francisco Sampaio (Políticas Penais e Cidadania)”, afirmou um integrante da prefeitura, que pediu para não ser identificado.

“Não se nomeia a primeira-dama de um município para uma pasta estratégica e espinhosa como a Saúde. Se a gestão não der certo, ela se torna praticamente indemissível. Como o prefeito vai demitir a própria esposa? O mesmo vale para o vice-prefeito. Nenhum prefeito deveria colocá-lo à frente de uma pasta tão cobiçada e visada como de Infraestrutura. Lula e Bolsonaro, por exemplo, não entregaram a pasta de infraestrutura aos respectivos vices. Se houver necessidade de substituição, o desgaste será inevitável. Luciana Mendes e Waguinho, apesar de bem-intencionados, fazem apenas o papel de figurantes de um prefeito com perfil muito centralizador. Ele atua, ao mesmo tempo, como prefeito, secretário de Saúde e secretário de Infraestrutura. É óbvio que não daria certo”, concluiu.

Pábio volta ao radar para 2028

Diante desse cenário, o nome de Pábio volta a ganhar força nos bastidores da política valparaisense para a eleição de 2028. Também cresce o movimento “Volta, Pábio!” entre setores da população e da classe política.

Além disso, o prefeito enfrenta um grave problema jurídico. Ele é acusado de ter usado dados de dois advogados e falsificado assinaturas em uma licitação realizada, em 2011, pelo Instituto de Previdência dos Servidores Públicos do município, o Ipasval. Caso seja condenado definitivamente por improbidade administrativa antes da eleição de 2028 e tenha os direitos políticos suspensos, Marcus ficará impedido de disputar a reeleição, o que abriria automaticamente o caminho para Pábio ser o candidato.

Independentemente de haver ou não condenação, porém, o nome do ex-prefeito está em alta nas casas de apostas. Mossoró talvez só não seja candidato caso conquiste uma vaga de deputado estadual, mas isso também não o impediria. Entre enviar recursos para Valparaíso e administrá-los e executá-los, a segunda opção dá muito mais protagonismo. Não é à toa que Lêda quis deixar a Assembleia Legislativa, em 2020, para tentar ser prefeita novamente.

O outro lado

Em nota enviada à reportagem, a Prefeitura de Valparaíso de Goiás afirmou que respeita avaliações divergentes sobre a administração, mas discorda das críticas apresentadas. Segundo o governo municipal, a divulgação de obras, serviços, investimentos e políticas públicas tem o objetivo de prestar contas à população e dar transparência à aplicação dos recursos públicos.

A administração também rejeitou a avaliação de que o prefeito Marcus Vinicius atua de forma distante ou sem diálogo político. De acordo com a nota, o prefeito acompanha as demandas do município, participa das ações do governo e mantém diálogo com a população e com o Legislativo municipal.

A prefeitura citou como uma das principais ações da gestão o PAC Anhanguera, com investimento de R$ 86 milhões em drenagem, pavimentação e instalação de 17 mil pontos de esgoto. Segundo o governo, as obras devem beneficiar mais de 100 mil moradores.

A nota também menciona serviços de drenagem no Anhanguera, Jockey Club e Vila Isabel. A administração afirma que as intervenções devem elevar a cobertura de drenagem de 32% para 50%. O município ainda destacou recapeamentos no Céu Azul, Cruzeiro do Sul, São Bernardo, Marajó, Santa Rita e Jardim Oriente.

Na Saúde, a prefeitura apontou a ampliação e a modernização do Hospital Municipal de Valparaíso e a reforma de 20 unidades de atendimento básico. Segundo a nota, dez estão em obras e seis já foram entregues.

O governo municipal também afirmou que o programa Saúde da Gente atendeu mais de 150 mil pessoas e reduziu filas por exames laboratoriais, cardiológicos, ressonâncias magnéticas e outros procedimentos.

Na Educação, a administração informou que reformou nove escolas e mantém obras em outras cinco. Segundo a prefeitura, a instalação de salas modulares deve criar cerca de 3 mil vagas neste ano.

A nota ainda destacou a parceria com o BB Alimentação, voltada ao acompanhamento educacional e alimentar dos alunos da rede municipal, além da entrega de mais de 30 mil kits com uniforme e tênis.

A prefeitura também citou a parceria com a Polícia Penal. Segundo a administração, o trabalho de pessoas privadas de liberdade em ações de limpeza, manutenção e reformas gerou economia aproximada de R$ 4 milhões aos cofres públicos.

Por fim, o governo afirmou que mantém projetos de ampliação de equipamentos públicos, captação de recursos e execução de obras estruturantes. Para a prefeitura, as ações demonstram que a gestão tem apresentado resultados e contribuído para o desenvolvimento de Valparaíso.

Da Redação

Fred Lima

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